É madrugada na roça
Quarto e meia, cinco horas
E o velho sem demora
Liga o radinho de pilha.
Ouve-se o som da viola
Falando do homem do campo
De suas dores, de seus prantos
Suas paixões e histórias.
O velho aumenta o volume
A casa inteira acorda.
Ao som da música sertaneja
O sono vai logo embora.
Na cozinha se ouve o barulho
Da colher na chuculatera
O café sai bem fresquinho
E alegra a família inteira.
O aipim já está cozido,
Banana, bolo de milho,
Cuscuz de puba e fubá.
Pra dar energia a fiarada,
Pra pegar firme na enxada,
É hora de trabalhar.
É meio dia na roça,
E o almoço está na mesa
Bem forte sem delicadeza
Gordura pra dar e vender.
Carne cozida no feijão,
Também cabeça de Cambão,
Para alegria do velho.
Ele se senta na varanda,
Pega o facão e o martelo,
Pra quem não sabe é mistério
O que ele deseja é o tutano.
Bate o martelo no osso,
Com força, com muito gosto
Então começa a jorrar.
O tutano bem gostoso,
Forte e tão saboroso
E a martelada a cantar.
Liga-se então o radinho
E dorme o sono do meio-dia
Depois volta ao serviço
E continua o compromisso
Só retorna de tardezinha
Chegou a noite lá na roça
E tem sopa no caldeirão,
Bem quentinha no fogão.
E a lenha a fumaçar.
Acende-se o candeeiro
De longe se sente o cheiro
Do querosene queimando.
Depois o povo se ajuntam,
E com cuidado escutam
As histórias que vão contando.
O velho então vai deitar,
E liga o seu radinho,
Na hora ainda está passando
O programa “a voz do Brasil”.
Ele retira a sua chapa
E põe num copinho com água
Até o dia raiar.
E o tempo passa sem pressa
E tudo então recomeça,
Com o cheiro de café no ar.