Pedreiras - Heróis e Objetos Ep01

Na mesa de um grande bar, na cidade de Pedreiras, alguns amigos sorriam e conversavam sobre as aventuras da vida na noite. Todos casados, pais de família e considerados pessoas de bem na sociedade.

Entre um gole e outro, os risos se tornavam mais altos e irreverentes, e a conversa, mais intensa e desavergonhada. Paulo, o mais enérgico do grupo, falava com empolgação de suas travessuras fora do lar. Dizia que todas as semanas conseguia uma nova pessoa para “se alegrar”.

Já faziam algumas horas que a prosa era a mesma, até que, ao pedirem uma nova rodada de cerveja, Isabel, uma jovem garçonete, foi atendê-los. A qual foi abordada por Paulo.

— Boa noite, moça! Eu estava falando aqui para os meus amigos… O Luiz acertou em cheio contratando você, viu. Mulher bonita assim cativa a clientela. Eu mesmo vou voltar aqui toda semana.

— Senhor, eu estou aqui na sua mesa porque estou trabalhando. Não estou dando liberdade para esse tipo de conversa. — disse Isabel, já muito irritada por ouvir a conversa da mesa e saber que eles a viam como um mero objeto.

— Eita que essa é esquentadinha! — disse Paulo, sorrindo junto com os amigos. — Sabe, é bem assim que eu gosto!

— O senhor deveria gostar da sua esposa, que deve estar te esperando enquanto você anuncia para toda a cidade que tem outros relacionamentos.

— Mas menina, pense bem… Se eu tenho um “potencial” que a minha esposa não consegue dar conta, preciso encontrar outras pessoas.

— Sei… O nome disso é falta de caráter, não “potencial”. — respondeu ela, retirando-se para outra mesa.

Mas Paulo a segura pelo braço e fala com um sorriso típico de cafajeste:

— Você sabe que o homem naturalmente tem muito mais desejo e libido, não é? Se temos mais, é justo que tenhamos outras pessoas para gastar esse potencial. Não acha?

Isabel se solta, nervosa, e caminha noutra direção. Paulo, se sentindo másculo e imponente, consegue num instante, discretamente, dar um tapa em sua bunda. Então uma confusão acontece.

— Ei, eu não te dei essa liberdade. Isso… Isso é assédio! — Isabel fica ainda mais nervosa e suas mãos trêmulas deixam a bandeja de alumínio cair ao chão, causando um grande barulho. Ela era uma jovem negra de média estatura que morava numa comunidade de Pedreiras. Seu olhar vívido, naquele instante, se torna opaco. Seus pés paralisados não conseguiam se mover para nenhuma direção.

— Assédio? Mas eu nem encostei em você! Ô Luiz, essa moça aqui está pagando uma de vítima pra cima de mim! Há quantos anos eu frequento esse bar? É assim que um cliente antigo é tratado aqui? — Paulo fala como se não tivesse feito nada. Seus amigos se juntam a ele e começam a descredibilizar a fala da garçonete.

— Seu Luiz, ele tocou em mim de forma inadequada! Eu estava indo para outra mesa e ele se aproveitou. — Isabel fala entre soluços ao patrão, mas consegue ver em seu olhar que ele não a defenderia. Pelo contrário, Luiz a responde defendendo o assediador, o qual era seu amigo:

— Isabel, talvez você tenha se enganado. Paulo é um homem de respeito na cidade. É um grande empresário, um exemplo de pessoa. Vamos deixar isso pra lá… foi só um engano.

— Eu sei bem o que aconteceu. E não foi um engano. — Isabel se retira para a cozinha do bar, envergonhada e tida como mentirosa. Ela termina aquela noite soluçando e chorando, se sentindo um lixo. Paulo e seus amigos continuam a festejar e todos agem como se nada tivesse acontecido.

 

 

Esse foi o nosso primeiro epsódio! Você pode comentar e mostrar sua opnião sobre o que deveria acontecer com os personagens. O que você achou da história?

Abaixo, deixo o poema que simboliza esse primeiro capítulo.

 


A mulher é como um objeto!
Exposto em ruas e praças,
Para alegrar a quem passa.
E todos podem olhar.
Do objeto se espera silêncio!
Concordância a todo momento.
Não falar, gritar nem reclamar.
Porque objetos têm donos,
Se não têm, estão disponíveis.
Porque certamente é impossível
A um objeto, a escolha.
Visão criada e consolidada.
Por gerações perpetuadas.
Colocando a mulher numa bolha.

O homem é como um herói.
Ao herói concede-se prêmios,
Fortes, recatados ou boêmios.
Um objeto certamente terá.
Na sociedade se acha aos montes,
Se encontra num breve instante.
Basta apenas observar.
Ao herói cabe então atitude.
Ser viril, tomar posse, atacar.
E mesmo que alguém discorde,
Ninguém ouvirá sua voz.
O povo fala, o povo grita,
Mas logo alguém replica:
Isso é coisa de herói.

Nessa sociedade de heróis e objetos,
O comum é o desrespeito.
Heróis pensam que têm direitos
De tocar, pegar e apalpar.
Heróis são inconsequentes,
Abusam de inocentes
E tentam justificar.
Foi muito mais forte do que eu,
Quando vi já tinha feito.
Mas também, de certo jeito,
Ela mesma quem pediu.
E o objeto leva a culpa
E às vezes pede desculpas
Ao herói que lhe feriu.


Ah, se chegasse o dia
Em que mulher fosse só mulher
E que fizesse o que quiser.
E que saísse tranquila de casa.
Que tivesse direitos concretos,
Que não se sentisse um objeto
Exposto em ruas e praças.
Que não precisasse justificar
Seu corpo, sua privacidade,
Seu espaço, sua identidade,
Suas vestes nem seu andar.
Se o básico virar realidade
E o sonho se tornar verdade,
Tudo então vai melhorar.

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