Pedreiras - Assédio? Não, apenas mi mi mi. S01 EP02

Isabel não sabia muito bem o que fazer ou que pensar, sentia nojo de toda a situação vivida. Não era a primeira vez que fora assediada, mas daquela vez decidira não ficar em silêncio, o resultado foi trágico. Não que ela esperasse um apoio total das pessoas, mas ao menos um pouco de compaixão, não uma acusação de vitimismo como ocorrera.

Naqueles dias as memórias traumáticas de sua infância voltaram com toda força. Parecia que mais uma vez se encontrava no beco da favela Alto Verde, onde morava, sendo tocada de forma indevida por um amigo próximo de sua família. Sua vontade mesmo era não sair de casa, mas seu quarto era dividido com mais duas irmãs, não havia privacidade nem ao menos para chorar.

Após o acidente que Paulo, o assediador, sofrera logo após o incidente, Isabel passou a sofrer acusações frequentemente. Em todos os lugares que ia sempre tinha alguém lhe olhando com desprezo, outros cochichavam palavras torpes sempre difamando a jovem com a mesma palavra: Vitimista.

Não demorou muito para Luiz demiti-la por pressão de alguns clientes. Segundo ele, a situação havia ficado insustentável. Não havia ninguém que a enxergasse como vítima, Isabel era a única vilã da história. Seu crime: acusar um homem de bem, um grande empresário de um crime que jamais cometeria, deixando-o vulnerável e causando um grave acidente.

Enquanto isso Paulo se recuperava e uma semana depois saiu do hospital são e salvo. No dia seguinte compareceu ao bar  e foi recebido por todos com aplausos!

—- Muito bem vindo meu amigo! É uma satisfação vê-lo saudável novamente! — saudou-o Luiz, dando-lhe um abraço cordial.

— Obrigado Luiz. E muito obrigado a todos que mandaram boas vibrações e oraram por mim. Obrigado também por acreditarem em minha índole sobre aquele mal entendido.

— Que isso Paulo? Você é um grande empresário, homem de família, bem casado com uma mulher exemplar! Aquela menina é só uma coitada da favela que queria se aproveitar. Esqueça isso!

— Soube que você a demitiu… podem avisar a ela que tenho vaga lá na minha empresa de materiais de construção. Seria um prazer recebê-la! —  Paulo sorri com seus amigos e brinca com as pessoas presentes. Ele se sente muito feliz por mais uma vez sair impune.

Isabel não sabia o que fazer, precisava daquele emprego para pagar sua faculdade. Sua bolsa era de setenta por cento, na Universidade Fênix, a maior faculdade da região. Mesmo com toda a situação vivida, queria muito se formar em música, seu sonho de infância e projeto de carreira. Mas agora a situação era dificílima. O jeito era engolir o choro, ignorar os traumas e correr atrás de um novo emprego.

Enquanto Paulo voltava a sua vida como se nada tivesse acontecido, Isabel via seu mundo inteiro se desmoronar por uma coisa que só parecia importar para ela.

Para sua sorte, seus amigos da faculdade ficaram sabendo do ocorrido e resolveram ajudá-la. Falaram com Gerusia, a dona da lanchonete que ficava de frente a universidade e a convenceram de que ela precisava de uma nova garçonete. De repente a vaga já era de Isabel.

Depois fizeram uma reunião com os amigos mais próximos da jovem e entre uma fala e outra se percebia que todos estavam com muita raiva de toda a situação. Como se fossem jovens escoteiros prometeram que fariam o que fosse necessário, mas veriam Paulo pagar pelo que tinha feito a Isabel e a tantas outras mulheres.

Uma grande batalha começa alí.

Vitimista, exagerada, mimimi.

É o preço da denúncia, da fala.

De uma voz que não se cala.

Que busca justiça por abusos

Condenações para intrusos,

Que tocam, maltratam, estupram.

 

A voz que fala é punida.

Além da privacidade invadida,

Agora é tida como mentirosa

Que com palavras enganosas,

A homens direitos insultam.

 

Vergonha é tudo o que sente

Seus olhos cansados não mentem

Renegam até o nascer.

Ninguém entende, ninguém ajuda,

Ninguém acolhe, ninguém escuta

Ninguém procura entender.

 

A vítima agora é vitimista.

O culpado, culpa não tem.

Na verdade é gente de bem.

Homem digno, homem justo

Defendido a qualquer custo.

Deixando provas ao abandono.

 

A saída é sempre acusar,

Tentar novamente condenar,

A vítima que tanto sofreu,

Dizendo que ela não entendeu.

Que foi apenas um engano.

 

Abusada, estuprada.

Também desacreditada.

Chora sozinha no fim.

E o povo por pura maldade,

Dizem com vil crueldade…

É apenas mi mi mi.

 



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