Dia após dia tenho exaurido meu cérebro em busca de estratégias que me tragam um futuro primoroso. Estudo, leio, questiono e elaboro ideias que penso serem geniais, as quais me farão uma pessoa de sucesso. Quando a noite se vai sou surpreendido com a notícia de que um país ao qual não pertenço, tomou decisões das quais não concordo e causou uma maré de mudanças ao meu redor das quais agora sou refém. O mercado mudou, os preços subiram e o mundo está um caos. Nada disso era plano meu, mas entre bilhões de seres que respiram, todos também resolveram planejar, como eu, e em sua maioria esmagadora também vão ter que recalcular suas rotas.
Nesse número gigantesco de ideias e pensamentos, sou apenas mais um entre tantos. Não posso controlar nada, por mais que eu tente. Enquanto isso vejo minhas horas se perderem enquanto minha mente vagueia por lugares que ainda não são meus. Perco dias e dias esperando um amanhã tão aguardado por tantos. De repente, sou apenas um espectador de um futuro que talvez nunca chegará pois o dia que há de vir depende de ações que ocorrem aqui e agora, mas eu não sou o único a agir e as ações dos outros têm interferência nas minhas.
Não penso que criar estratégias para o futuro seja uma coisa ruim, pelo contrário, é algo essencial! Mas é bom lembrar que outros tantos estão fazendo o mesmo e alguns destes tem o poder de influenciar ou até anular tudo o que planejarmos. É bom termos uma visão realista de que nem mesmo o hoje que temos pertence de fato a nós. Estamos tão preocupados com a realização de nossos sonhos que nem percebemos que no meio de bilhões de seres pensantes e preocupados, quase todos estão fomentando e defendendo ideias que aceitaram sem pensar.
Que diante do amanhã que surgirá para todos eu não seja levado pela maré por não conseguir ver mais do que o meu ponto de vista.
Vivemos numa sociedade que grita para ser ouvida, mas se recusa a escutar.
Ideias viraram armas. Diálogos, campos de batalha.
E, no meio disso tudo, seguimos ferindo quem amamos — só para provar que estamos certos.
Sempre que me aproximo de uma questão, e a cada passo em que me esforço no pensamento e me dedico ao aprendizado, percebo o quanto ainda não sei.
É madrugada na roça
Quarto e meia, cinco horas
E o velho sem demora
Liga o radinho de pilha.
Ouve-se o som da viola
Falando do homem do campo
De suas dores, de seus prantos
Suas paixões e histórias.
O velho aumenta o volume
A casa inteira acorda.